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30/09/2011

Nação Xingu





NAÇÃO XINGU
( Carlos Tourinho de Abreu)

Nação Xingu – O Brasil cada vez mais se nega a pagar uma dívida histórica.

Entre 20 e 25 de fevereiro de 1989, a região de Altamira (PA) reuniu três mil pessoas - 650 índios – no intuito de protestar contra o governo vigente que desde aquela época tinha a intenção de construir uma poderosa barragem no Rio Xingu. O nome dado ao encontro foi forjado pelo espírito aborígine de diversas tribos de nação brasileira, como o I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu. Naquela época, segundo palavras do cacique Paulinho Paiakan – nome que virou quase folclórico no Brasil dos anos 90 –, líder kaiapó e um dos organizadores do encontro, junto a outras lideranças como o cacique Raoni – que viajou o mundo em campanha ao lado do “jordie” inglês mais famoso do mundo, o consagrado Sting -, Marcos Terena e Ailton Krenak, a manifestação tinha a intenção de pôr fim a qualquer decisão tomada na Amazônia sem a participação direta dos índios, maiores interessados.
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 Começava assim uma cruzada concreta contra a construção de hidrelétricas naquela região.
Quase 20 anos depois, em 2008, o projeto da hidrelétrica mudou de nome, mas os agouros por trás das conseqüências da sua construção continuavam os mesmos. Agora rebatizada como Barragem de Belo Monte, nos anos 80 chamada de Kararaô, hoje é considerada a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. Os mesmos índios de 1989 não titubearam em novamente reagir, desse modo, realizou-se mais uma vez em Altamira o II Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, e daí nasceu o Movimento Xingu Vivo para Sempre. Os mesmos caciques Raoni – com seu lábio inferior mais alargado pelo tempo, o que caracteriza a expansão da sua luta –, e Megaron – apesar de agora ter o rosto mais curtido pelo tempo, seu espírito e cultura parecem continuar mais convictos e enraizados – fizeram coro junto a ambientalistas e Sting, que mais uma vez veio aos Brasil lutar pela causa justa dos índios da Amazônia. Pois é, se nenhum “global” quis se expor em prol da nobre causa, o gringo teve que suprir esse papel derramando consciência política e ambiental nos cafundós do país.





Descasos à parte, tudo piorou quando o Ministro de Minas e Energia, Edson Lobão declarou publicamente que via “forças demoníacas tentando impedir a construção da Usina de Belo Monte, no Rio Xingu... e que procuram impedir a construção de uma usina dessa magnitude e dessa importância para o futuro do Brasil”. Não preciso afirmar que os índios se indignaram com tão infeliz declaração, no mínimo com certo teor preconceituoso e por que não dizer racista. Sem contar que o ministro trouxe à tona o delicado relacionamento dos índios do passado com colonizadores portugueses, que do mesmo modo – racista e preconceituoso – rotularam os nativos sul-americanos como criaturas desprovidas de alma e quiçá demoníacas. Frente a fatos tão deploráveis como esses, tendo a acreditar nas palavras atribuídas a Albert Einstein na grande rede: “Só duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, mas não estou seguro sobre a primeira". Estúpidos humanos ditos brancos renegam a carga cultural e genética herdada dos povos indígenas brasileiros. Na face dos índios do Xingu de Altamira vejo claramente os traços carregados por uma maioria de brasileiros considerada a nata da sociedade branca de hoje em dia. Traços inclusive presentes em rostos de ministros falastrões. Como renegar e nosso próprio sangue? Mesmo que muitos neguem veementemente, ou se sintam constrangidos, quase todos, se não todos, os brasileiros carregam no seu DNA um pouco – ou muito – de índio, o verdadeiro “brasileiro”. Se não no sangue, sem dúvida na herança cultural. Sem ela, portugueses e outros europeus morreriam sumariamente de fome no ambiente hostil que encontraram em 1500.






O governo brasileiro tem SIM uma enorme dívida histórica para com os povos nativos do Brasil. Mesmo não acreditando no tal genocídio vindo unicamente das mãos de portugueses e espanhóis, pois seriam poucos contra os milhões de índios daquela época, acredito que a malícia e melhor tecnologia européia no momento do choque cultural tenham sido os principais fatores responsáveis pelo quase desaparecimento de uma cultura milenar. Índios – que já eram inimigos entre si, mesmo antes da chegada dos brancos – se mataram sob a tutoria e direção de europeus viajantes aos trópicos exclusivamente em busca de lucros, isso sem contar os nativos que se renderam aos encantos da nova cultura do Velho Mundo, misturaram seus sangues aos sangues Pêros e criaram o povo típico brasileiro dos dias atuais - mestiço. Isso mesmo, os índios tidos como mortos e massacrados estão em parte a perambular por nossas veias. Mas mesmo assim, devemos aos descendentes diretos desses povos antigos, Tupiniquins, Tupinambás, Xingus, Guaranis etc e etc, o respeito que merecem. Assim como paises modernos enaltecem sua história e cultura através de museus e preservação de traços, celebrações, marcos, objetos típicos, temos obrigação de manter viva a cultura Tupi-guarani. Há melhor forma de cultivá-la do que deixando vivos e felizes os seus descendentes mais próximos e fieis?
                                                                                                    




Mas temos que tomar muito cuidado com um modismo que atrapalha muito a causa dos índios verdadeiros. Cada vez mais aparecem índios fajutos, com cara de branco ou afro-descendente, enfeitado com penas e colares, mas sem abdicar dos seus calções da Nike, discursos politizados e estratégicos, que frente às dificuldades que o capitalismo lhes impõe, vêm com o estandarte de uma tal de “retomada” na vil pretensão de angariar valiosas terras que há muito deixaram de ser virgens. Oprimem outros martirizados pelo sistema, já que normalmente as terras que eles reivindicam como herança dos seus antepassados hoje dão sustento a uma maioria de em torno de 80% de micro-produtores agrícolas, talvez com mais sangue indígena do que os espertalhões que tentam usurpá-la a pulso. Muito diferente dos grandes latifundiários, os invadidos são gente simples que teve que abrir o mato no braço, enquanto os agora autoproclamados “índios” se aventuravam na vida de branco nas grandes cidades. Hoje esses ladinos impõem aos pobres produtores agrícolas o mesmo terror sofrido pelos nativos legítimos dos tempos passados. Oportunismos à parte, essa é uma minoria, pois os índios que defendo nesse texto são reais, de verdade. Índios que falam sua própria língua, vivem da terra e levam adiante uma linha cultural que nunca foi partida. Um cordão umbilical ainda ligado aos antigos, virgens à dominação européia. Mas você acha que o Brasil tem qualquer tipo de preocupação com esses índios?
                                                   

                              


Não, como um carrasco flagelador o governo brasileiro, à moda colonizadora, persegue ou renega as tribos mais silvícolas. Ignoram o fato de que a floresta, o rio e as pequenas plantações de subsistência são o "supermercado" do índio. Sem eles, morrerão de fome ou serão obrigados a migrar para as incontáveis favelas brasileiras, já abarrotadas de pobres almas em busca de alento. O Brasil pode gerar a energia necessária para o seu desenvolvimento investindo em projetos que desenvolvam fontes renováveis, modernas, esquecendo as já desgastadas hidroelétricas, causadoras de tamanha devastação ambiental em regiões ainda praticamente virgens. Por isso, junto o meu clamor em apoio aos índios do Xingu. Na minha modesta opinião as forças demoníacas as quais o ministro Lobão se refere, na verdade, devem habitar nos corações dos maiores interessados na construção da barragem, que completamente despreocupados com a causa indígena, com a preservação cultural e ambiental, somente têm olhos para as burras de dinheiros que ganharão às custas de enorme destruição. E não se esqueçam, à moda antiga, como já se fazia há meio milênio! Que o Deus Tupã olhe por nossos índios, pois da justiça desta terra envenenada pela corrupção, nada poderemos esperar!




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