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02/10/2011

Da arrogância




Da arrogância

( Marciano Vasques)


Sei porque não combino muito. Agora entendo: eu nunca estive preparado para tanta maldade. Sempre terei muita dificuldade em lidar com a arrogância. Você pode realmente escrever coisas lindas e até comoventes. Mas quando essencialmente o coração é arrogante, de nada adianta. Durante um bom tempo, romântico que sou, mantive em mim uma visão extremamente pura que não combina com os dias atuais. Defendia eu, e disse isso em muitas conversas entre os amigos, defendia pois que o poeta deve viver de acordo com o que escreve. Depois fui estendendo o meu pensamento e ele se tornou mais abrangente. Não apenas o poeta, mas também o artista da "Televisão", o ídolo das massas. Todos deveriam viver de acordo com o que pregam em suas artes. Tive dificuldade imensa em aceitar que artistas populares da mídia, participassem de anúncios publicitários, inclusive e principalmente de comerciais e propaganda de cervejas. Cantores pagodeiros, cantoras, atrizes, ao vê-los não consegui me livrar da ofensa que isso significou, embora sempre tenha compreendido a questão do dinheiro. Depois, ampliando o meu pensamento, quis também que o jogador de futebol, o atleta, sempre fosse um modelo de virtude, senão tanto, pelo menos, um modelo ético, de retidão, pelo menos, para as crianças. Aos poucos fui me adaptando ao espírito da época, sem aceitar, mas aprendendo a conviver. Aceitar jamais, pois ao aceitarmos morremos, algo em nós morre, algo muito profundo e grandioso. E continuei em frente, radical em meu romantismo, em minha pureza, como bem me disse um poeta. E então, se afrouxei os laços da minha exigência com os artistas midíaticos e com os esportistas, continuei querendo, pelo menos querendo, que o poeta, mais do que o romancista, mais do que o contista, o cronista, ele, o poeta, deveria sim manter o seu coração aceso para a amizade, manter o seu coração aberto para o sol da compreensão, da gratidão e da ternura. Não aceitei ainda que o poeta deva ser arrogante. E cada vez que me deparo com um assim, imediatamente penso naqueles que não são dessa forma, aqueles que escrevem seus poemas e escrevem também na face dos relacionamentos o dom de ser generosos e humildes, humilde não é esconder as suas qualidades, os seus valores, a sua real importância, humilde não é ter falsa modéstia. Não me lembro do Pelé declarando que não sabe jogar bola. Humilde é ser respeitoso, é não ser arrogante, é compreender que o outro também tem valor, é compreender que além da sua Poesia, outras poesias, de outros poetas, estão como bandeirinhas de palavras numa ciranda que vela pela beleza do mundo. As sociedades precisam sim dos poetas, eles são seres necessitados. O mundo correria menos riscos de explodir numa guerra nuclear se tivéssemos mais poetas e menos políticos, menos soldados. Precisamos sim desses loucos com alma de cigano, mas precisamos de poetas generosos, amorosos, não de poetas arrogantes, pois a arrogância não leva a nada, ou melhor, afasta o leitor do poeta. Fica só o poema, não o homem. Tatiana Belinky disse-me certa vez que tinha muito receio de encontrar um certo escritor, por quem ela sentia admiração. Dizia então que seria melhor jamais o encontrar pessoalmente. Preferia apenas conhecer os seus textos, pois ele poderia ser "chato", arrogante. Tatiana sempre soube das coisas. E eu cá estou a esperar que a poesia tenha a força para interferir no coração do poeta.



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1 COMENTÁRIOS:

Tunin

A arrogância é um sentimento repugnante. O texto está muito bom! Abração.

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