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05/03/2014

Andam os lobos sobejos

Andam os Lobos sobejos

(Xico Almeida)





Dizem que são animais bons e que na sua comunidade adoptam as crias orfãs, alimentam-nas tal como às lobas que dão leite, dividindo sem violência as presas que capturam, numa partilha orgulhosa. Mas o que perdura na memória, ainda são os medos.


Vi-os numa noite de inverno da varanda da casa de meus pais. Lá estavam na mata da Estrecada, olhos que nem faróis e o tio Domingos, candeeiro de petróleo na mão a subir a ladeira.  Ia ver se a loja onde pernoitava o rebanho estava bem fechada. Homem intrépido, tal que os lobos devem tal ter sentido que desandaram.

Agora que o frio já chegou, traz à lembrança tempos passados, já lá vai quase meio século, em que eles abundavam nas nossas serranias, terror dos rebanhos, dos pastores e gentes da aldeia. No pico do frio vestido de chuva, gelo e neve, os rebanhos eram recolhidos a meio da tarde para prevenir... e na ausência de presas, esfomeados, eles desciam até Forninhos por caminhos e carreiros. Desciam por Valongo desde a aldeia da Matela, atraídos pelo cheiro da recente matação dos porcos, ainda dependurados no chambaril, escorrendo para a desmancha. Andavam com fome e atrevidos, qual desafio entre homem e animal.


Alertados pelos intensos latidos e rosnar dos cães, em casa fazia-se silêncio, enquanto se sentia o cheiro da lareira, fechavam-se as portas e janelas, com medo, medo esse que por vezes punha as pessoas "sobocadas", arrepiadas e de cabelos em pé. Ficava-se de atalaia até o uivar feroz do bicho  e o seu bater das "castanholas", fosse desaparecendo, largando a porta bem fechada da loja aonde o porco estava guardado, e depois deambulava pela aldeia fantasma,  pesarosa, amedrontada e recolhida por o "diabo" a ter invadido, sem medos, afrontando cães e alguns matando - andavam os lobos sobejos - quer dizer: ousados, atrevidos.


Para prevenir a vida dos cães, foram adoptadas coleiras pontiagudas ao pescoço, como no caso do cão do tio Daniel, maior em corpulência que os lobos, mas nunca fiando!

Tinha as ovelhas para guardar em Cabrancinhos.



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15/10/2013

Começando a escola...


COMEÇANDO A ESCOLA...







Penso ter sido a 7 de Outubro de 1963!

Finalmente iam-se abrir as portas da iniciação escolar, íamos para a primária.

Há dias que sentíamos um nervoso miudinho, fruto da ansiedade.

Afinal o que era ir para a escola, diziam, aprender a ler e escrever. E ter regras.

Afinal o que seriam as regras, nós já as tínhamos os castigos das nossas tropelias ou seria que ali iríamos ter mais castigos por já antevermos que seria uma casa de aventuras?

À noite, depois da ceia, a minha mãe ia costurando agarrada à máquina Singer. Esta a fazer a sacola de pano azul, cuja alça poria a tiracolo. Na véspera colocou dentro o livro, no qual aprendeu a ler a minha irmã Lurdes, um caderno com linhas reservado aos ditados e redacções, a pedra de lousa com caixilhos de madeira na qual se iriam fazer os exercícios. 

Faltava a caneta de aparo para molhar no tinteiro incrustado no tampo da carteira.

Noite mal dormida, calção vestido preso por suspensórios, apesar de já termos entrado no Outono, mas ainda estar quente. Botas de cabedal ensebadas e boina espanhola na cabeça e vamos ver como é o mundo de quem sabe ler.

À saída do páteo, volto atrás, faltava o pião que logo meti na sacola e a minha rica fisga.

Agora sim, podia enfrentar o mundo e ia armado com a fisga no bolso de trás.

Ao fechar a porteira senti um calafrio, como se estivesse perdendo a idade da inocência.

Do lugar do Ribeiro, subindo ao Outeiro, passando pelo largo da Lameira, o percurso nem era longo, mas as botas não correspondiam, pareciam vir para trás e isso apenas começou a passar à chegada à escola.

Lá estava a maioria da nossa tribo, a dos pequenos iniciantes. Abraçados numa algazarra como se não estivéssemos juntos há séculos, mas ao olhar os maiores das outras classes, a maioria repetentes, quase homens, ficamos aterrorizados: íamos ficar todos na mesma sala, na escola de baixo, pois a de cima era das raparigas.

Entramos e a sala parecia enorme e a professora, uma senhora da aldeia da Mata, parecia o juízo final, como se não bastasse ser de onde era.

Já nos tinham ensinado em casa o cumprimento:

- Bom dia Senhora Professora.

- Bom dia meninos. Bem-vindos.

Mas bem-vindos a quê? Quanto tempo levaria a aprender e quantas horas seriam por dia?

A nossa "vida" lá fora não podia esperar o tempo que a professora queria. Quem iria apanhar os nossos tralhões, atirar aos ouriços roubados das castanhas, espreitar os ninhos e ir ao rio pescar?

Sem nós o mundo pouco duraria. No intervalo que demorava a chegar, a tribo iria reunir. Quando a professora grita:

- Meninos podem sair, meia hora de recreio e portem-se bem, ouviram? Aqui a horas!

Qual meia hora, a maior parte de nós criou fogo nos pés e ainda hoje seriamos foragidos se não nos tivessem apanhado!

Até porque era o primeiro dia de escola e nem sequer tínhamos relógio...






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