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23/10/2012

Nem sempre o mar...


Nem sempre o mar ensina a navegar quando a ilha é desconhecida
( Luciana Santa Rita)




"... Disparate, já não há ilhas desconhecidas. Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas. Estão todas nos mapas. Nos mapas só estão as ilhas conhecidas. E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura? Se eu te pudesse dizer, então não seria desconhecida. Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe? Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida....Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não vemos se não saímos de nós... “(José Saramago in Conto da Ilha Desconhecida. Companhia das Letras. São Paulo, 1998)



Por trás dessa aparente inquietação da navegação a deriva, penso que Saramago desejava muito mais que apresentar uma parábola do sonho do porto seguro. Talvez, aperfeiçoar a resistência à consolidação das coisas visíveis; como se dos embates que não enxergamos, auferisse-se a negação fulcral à concretização do sonho em si mesmo.

De um lado, devia acreditar que cada um sonha sem considerar a invisibilidade da ilha.  Ou mesmo acreditar que não há ilha desconhecida ou aventuras oceânicas que não se atemorizem frente ao mar tenebroso.

Por outro lado, sempre é necessário ultrapassar o sonho para ver a ilha e quem sabe compreender a vontade de abrir todas as janelas da embarcação, independente da visão do sol em terra à vista. Acho que não poderia ser a certeza de um naufrágio sem culpa da humanidade, mas, apenas a morte de todos os presságios da rota traçada. Seria apenas o caminhar da caravela solitária ao seu destino.

De forma geral, sonho morre quando deixamos morrer. Morre sufocado pelo incerto. Morre sem cremação ou missa de sétimo dia. Morre talvez por tentar extravasar-se pelos seus olhos contidos. Morre porque o deixamos sem os óculos ou mesmo sem o remédio de pressão. Morre porque deixamos a porta aberta para a despedida. Morre porque insistimos no elevador que desce sem a noção dos andares. Morre porque justamente não suporta a indiferença do espirar do horário. Morre porque faz a devolutiva da fé e arruma a cama sem pensar na recompensa do cobertor.

Penso que sonho nasceu para ser guardado e não se desfalecer em recuo, deveria, assim, morar no melhor quarto da casa com vidraças de cristal. Deveria não incomodar e não ter direito as testemunhas. Todo sonho tem seu mundo simbólico.  E talvez seja mais próximo do amor, pois não sabe conviver com o inacabado.

E assim é o sonho do outro, às vezes já nasce em um santo sudário. Penso que bastaria que abríssemos as nossas recordações para não fazer túmulos dos sonhos alheios. Bastaria entendermos que não há como sonhar sem tocar no sonho ou acreditar na realidade do outro.  Bastaria rejeitar a frase de Renato Russo em que declama que a humanidade está ficando desumana.

Demorei um pouco para entender que não há cúmplices para desbravar a ilha desconhecida. Assim, quase não conclui, persisti  ou cheguei à nau. É difícil falar em prolongar sonho quando o consideramos findado. Penso que um sonho nunca deveria ter pontos finais. É como a queda lenta dos brincos de viúva  contra o chão em mil gotas vermelhas que não permitem o resgate na areia.

Não é fácil ultrapassar a linha tênue das ilhas conhecidas e não basta desejar um barco para depois partir, precisa-se da vocação verdadeira da caravela. Ao pensar no sentido dessa frase penso na  rendição à acomodação frente  a uma ilha desconhecida. Às vezes naufraga-se pelo caminho ou se transforma várias vezes sem nenhuma emoção, nenhuma vontade de continuar. Transforma-se no orfanato involuntário dos cardumes.

Não diria que o tempo das marés não resolve nada ou muito menos amplia os limites da realidade, mas com certeza amortece e acalma a sensação de perder a senha do banco. A questão não é que a ilha desconhecida permite a debandada em silêncio, mas a escolha de se dividir o sonho pode ser apenas obra de ficção científica ou uma vida de procura sem recompensa na estadia. Às vezes não conta com a cumplicidade de estranhos e é tão  desalentadora como a espera do chuveiro quente no inverno.

Não existe apogeu no olhar indiferente, na busca contrária a normalidade do estibordo. Pensando na mais fiel definição da procura da ilha desconhecida, tenho que concordar com o gato de Lewis Carroll, quando ele fala que quando não se sabe para onde vai, qualquer caminho serve.

Já me senti assim, me afastando, indo embora e destoando o entendimento que a embarcação está sem velocidade.  Dia após dia, sem perceber que velas estavam amarradas não porque concedi  as algemas, mas por não me atrever a levar o barco à doca. Acho que andei parando e não olhando além da proa.

Do interior, não vi a paisagem fixa e  adiantei  a ressaca para voltar ao porto. Acho que sem querer perdi o romantismo da partida, e olhe que nem tenho certeza se algum dia fechei os olhos a espera da ilha. Antecipei logo a crise perto da data do despacho e até do repertório de fazer as malas e desisti.

Acho que o provisório do mar com intensas tempestades ampliou as minhas invencibilidades. Acho que não acreditei na destruição do vazio do eremita. Qualquer um navega melhor acompanhado e não há como fugir do código das gaivotas à paisana. E agora acentuo a minha frieza, principalmente  quando falta  a partida frente a presunção egoísta do futuro incerto.

Gosto de me recordar na estranha obviedade de Fernando Pessoa quando ele colocava  que navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso, viver não é preciso." Imagino que sonhar seja preciso e passa a ser um delírio inútil se os caminhos foram feitos pelos que passam cegos às ilhas desconhecidas face ao perigo.

Li em certa ocasião que Michelangelo um dia respondeu a respeito de como tinha feito a escultura de Davi com cerca de 4,5 metros de mármore. Sua resposta foi: fácil fiquei horas olhando o mármore e enxergando o Davi, ai peguei o martelo e o cinzel e tirei tudo aquilo que não era Davi. Acho que ele percebia alguma espécie de sentido ou o que viria depois.

Não sepultando a esperança é possível aceitar sem resistência e desalento a possibilidade do futuro com a ilha.   Basta apenas vingar as palavras do poeta português Fernando Pessoa:"Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso".


É preciso dispensar os mapas ou as bússolas que não se sustentam em mar aberto e enfim encontrar a ilha.  "A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma."




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06/08/2012

Nós somos o que nos falta




NÓS SOMOS O QUE NOS FALTA

( Luciana Santa Rita)


"Não, não chore; nova esperança, novos sonhos, novos rostos. E a alegria não vivida dos anos que estão por vir vai mostrar que o coração pode enganar o sofrimento. E que os olhos podem as próprias lágrimas iludir”. (ADDISON, C. Cruzando o caminho do sol. Novo Conceito: Ribeirão Preto, 2012, p.49)

Epíteto, filósofo grego, pondera que não devemos pedir que  os acontecimentos ocorram como queremos, mas devemos absorvê-los como ocorrem, pois, assim, a vida poderá ser feliz.  Nesse entendimento, a felicidade implica em aceitar os tropeços, recebendo as coisas como elas são, aproveitando a premissa de que é necessário deslizar pela vida,  principalmente, quando ela  ignora os nossos desejos.  Quando a vida nos falta.

Perante essa concepção filosófica, seria muito mais racional alterar os desejos do que mudar a ordem das coisas, não se debelando contra as situações que pouco se importam com o que passa ao nosso redor. Com bem-aventuranças, as circunstâncias são baluarte apenas de si mesmas, entram pela vida com uma chave única da porta, configurando na saída a meditação do nada, como se cada homem fosse só um pária.

Nem sempre há justiça nas relações, independente da apelação às instâncias máximas. Sentimentos simples podem ganhar uma condição de destaque se ameaçados de extinção, alcançando um valor incomparável, mas nem sempre o desprezo, gera atenção da Corte Suprema. Às vezes, os sentimentos são preciosos por não existirem ou mesmo durarem nos nossos desejos.

Por um lado, o medo do abandono e da solidão não impede de não sermos amados por nossos pais, irmãos, amantes e amigos. E por mais que se lute, agonizando, tentando resgatar uma intimidade que nunca se teve, o outro  continua fingindo,  por estar certo, não por desmerecimento, mas porque não há nada a fazer.

Por outro, erra quem entende que a negação do que falta, torna invisível a dor, a perda e, talvez, a culpa. Não há válvula de escape quando o coração tenta enganar o tempo, pois ele nos encontra onde quer que seja. Esse é o mal de percebemos à vida externa melhor do que a nossa, rebatendo o drama pessoal, esperando o olhar piedoso para não aprender a passear sozinho.

Epíteto, mesmo escravo de Epafrodito, acreditava que felicidade e realização pessoal eram desdobramentos de atitudes corretas, sendo que desejo e a felicidade não podiam viver juntos. Não lamentava as injustiças e celebrava os triunfos, sem se preocupar com o apego ao dia seguinte, permitindo, assim, tê-lo como descaso.

Em sua concepção, da mesma forma que o desejo vem, ele vai embora, pois as pessoas mudam. E quando o dia acontece, não temos desculpas para não assumirmos os nossos erros ou vivermos a escuridão de nossos problemas.  Não saber lidar com a nossa própria dor, só, deposita a esperança fora de nós.

E a relativa liberdade nos permite a andar devagar, quase parando, esperando que o outro resolva o que é só nosso. Somos "Alzheimer Familiar", pois no mundo encantado de Bob, queremos as verdades simples de se suportar, somos defensores do esquecimento benigno da estátua que chora quando o sol se põe.

Eternos nostálgicos da frase que o joio se separa do trigo, minimizando o fato de que na vida real, pode existir só o joio. Mas o dia do acerto de conta da produção sempre chega sob a dor ou a raiva, e o tempo não se permite a não passar ou atrasar o pagamento, sem dignidade, mesmo que em breve, esteja esquecido no passado. E, assim, a amargura do dia longo ser transitório, é tão verdadeira como o fato de não sermos amados tanto como gostaríamos.

Talvez essa ânsia pelo amor nos remeta a nossa vulnerabilidade como cantou Renato Russo: [...] Os sonhos vêm e os sonhos vão. E o resto é imperfeito […]”.Assim, vivemos apavorados com o que  não nos pertence e demonstramos a fraqueza que só nos conduz a novas indefinições, ignorando o rochedo quando a colisão estar à frente. Quando ela já não nós pertence. Quando não há freio de mão.

Em certa ocasião, escutei de uma conhecida que a frase que contempla que é melhor ter amado e perder do que nunca ter amado, nunca poderia ter sido escrita por aqueles que perderam a quem amaram. Mas, independente, dos que só amam e dos que apenas são amados, na vida real é preciso saber perder vantagens e valores para ganhar outras opções de realidade. Não achar que o correto é pular antes do trem ganhar velocidade.

Já perdi algumas pessoas apenas porque acreditava no controle sobre os desejos alheios. Rebelava-me porque os ciclos de humor não eram oriundos da minha intuição, rondava pela toca, exigindo alegria quando recebia frieza, esperando mais atenção quando recebia efusão. Achava que tudo girava ao meu redor, inclusive o poder sobre os altos e baixos externos. Hoje não tenho entusiasmo com a atenção ou entro em pânico na solidão. Com o tempo ou com os erros, resolvi sair sem sentimentos das relações.

Aprendi a não ver a ação do outro como fruto de maldade, mas de uma opção que só não é a minha. E por mais que a fotografia revele um desejo esperado de perfeição, sigo a instrução de criar uma blindagem contra o sofrimento, mesmo paradoxalmente sofrendo.

Isso talvez nos enlouqueça, mas só, assim, enxergaremos nas ações que não são nossas o início da posição de humano superior em quem verdadeiramente nós somos. Talvez, sejamos tudo e nada, mas por tão pouco esquecemos que em si mesmo nada somos, que tudo se perde na imensidão dos milhares, do vácuo da nossa ignorância humana e do fardo da vantagem de não sermos bobos e por isso vencíveis.

No final, poderemos ser escravos ou reis, mas, com certeza, o fim dos nossos desejos que se voltam contra o outro que compete também pela razão de ser e existir. Talvez Deus tenha se esquecido de nos avisar que não seríamos únicos.  E mesmo esgotados emocionalmente, totalmente exaustos, temos que encontrar uma posição confortável, aceitar que não há juízo de valor na escolha do outro, mas corroborar com  Lord Byrosn: “O coração será partido, mas continuará vivendo”.

E sem rejeitar o confinamento dos nossos desejos, ser um bobo, ficar tranquilo, não desconfiar ou desejar, mas ganhar liberdade e sabedoria para continuar vivendo, sem paranoias como se as dificuldades que a vida nos apresenta, tivessem sempre um caráter pedagógico. Não se enganando da pontualidade das circunstâncias e da limitada percepção de nossa compreensão.

E como Clarisse Lispector diz: “É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor E só o amor faz o bobo."

(*): O título do texto  é de uma frase de Eduardo Portella para apresentação da crônica: "Perfil de ser eleito" de Clarisse Lispector
Crônica publicada  no site O Pensador Selvagem na Coluna Vida (Navegando no Cotidiano): http://opensadorselvagem.org/vida-e-estilo/navegando-no-cotidiano/nos-somos-o-que-nos-falta

Visite a autora:  Luciana Santa Rita 



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